

EPÍSTOLA AOS GÁLATAS
(Informações de domínio público, pesquisadas e selecionadas de muitas publicações, adaptadas e reorganizadas por Walmir Vieira)
CURIOSIDADES E OUTRAS INFORMAÇÕES
1. A AUTORIA
Gálatas 1.1 e 5.2 identifica explicitamente o apóstolo Paulo como o escritor da Epístola aos Gálatas. É possível que o próprio Paulo a tenha escrito, mudando sua prática usual de ditar suas cartas a um secretário (amanuense).
Gálatas 6.11:
Vejam com que letras grandes escrevi a vocês de próprio punho!
A maioria dos conteúdos dos capítulos um e dois são autobiográficos e trazem informações sobre a vida do apóstolo Paulo, seu trabalho missionário e sua herança genuinamente judaica: a) judeu de nascença; b) circuncidado; c) descendente da tribo de Benjamim; d) fariseu; e) educado aos pés de Gamaliel e f) perseguidor da que considerava seita cristã.
Paulo teria nascido entre os anos 05 e 10 d.C. na cidade de Tarso, província da Cilícia, Ásia Menor. Morreu por volta de 67 d.C., em Roma, possivelmente, decapitado.
Não existe evidência para refutar a genuinidade da autoria paulina da Epístola, inclusive, a Epístola aos Gálatas geralmente é o padrão pelo qual outros escritos paulinos costumam ser testados quanto a sua autoria.
2. A DATA DA ESCRITA
A Carta aos Gálatas, possivelmente, é a primeira a ser escrita por Paulo e o primeiro livro do NT a ser escrito. As evidências mais fortes apontam sua escrita entre 48 e 50 d.C., antes do Concílio de Jerusalém (Atos 15).
Outras evidências apontam para 53-56 d.C., depois do Concílio. A reunião descrita em Gálatas 2.1-10, para alguns autores, ocorreu durante o chamado “Concílio de Jerusalém", relatado em Atos 15.1-29. Essa visão abre várias possibilidades para o local e data da escrita.
A data precisa da escrita está ligada ao problema central da Carta: a pregação dos judaizantes (judeus cristãos) quanto à obrigatoriedade da circuncisão e da observância da Lei mosaica para a salvação e a consequente realização do Concílio, para resolver a questão. Parece que o relado do encontro de Paulo, Barnabé e Tito, com os demais líderes da Igreja, em Jerusalém (Gl 2.1-10) referia-se ao Concílio. Este texto deixou dúvidas. Então resumi assim.
A segunda visita de Paulo à Galácia, mencionada em Gálatas 4.13, é a de Atos 16.6; então, a epístola é pós-Concílio de Jerusalém (53-56 d.C.). Nesse caso, a data posterior pode ser a certa. Por outro lado, se a segunda visita (Gl 4.13) se refere a revisitar as igrejas para fortalecer as que havia organizado, conforme menciona Atos 14.21, então a data pode ser antes do Concílio de Jerusalém (48-49 d.C.).
3. OS DESTINATÁRIOS
Existem duas teorias para definir a região da Galácia onde estavam as igrejas para as quais Paulo enviou a Epístola: as da Galácia do Norte e as da Galácia do Sul. A teoria da Galácia do Norte foi praticamente incontestada até os últimos dois séculos, mas a evidência de Atos parece apoiar melhor a teoria da Galácia do Sul.
A teoria da Galácia do Sul foi reforçada em função dos registros das visitas de Paulo às igrejas das cidades dessa região no livro de Atos (Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe), demonstrando a proximidade e a facilidade para comunicar o problema que a Carta aborda. Esta era uma extensa província romana, quando o Apóstolo fez sua primeira viagem missionária pela Ásia Menor.
A teoria que coloca os destinatários como as igrejas da região Norte da Galácia (Ancira, Pessimo e Távio - não mencionadas nominalmente no Livro de Atos) defende que Paulo teria escrito às comunidades que ficavam num pequeno território de cerca de 300 quilômetros de extensão, no distrito da Ásia Menor; tal território, no passado, fora invadido pelos Gauleses. Essas igrejas também foram estabelecidas por Paulo em sua segunda viagem missionária, na primitiva e restrita região da Galácia.
Possivelmente, Paulo escreveu com foco nas igrejas das cidades de Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe (Galácia do Sul), conforme Atos 13.13,14 e 14.20-25. Hoje, a maioria dos estudiosos entende que a Carta foi dirigida a todas as igrejas da Galácia, pois em 25 a.C., o imperador romano Augusto criou a Galácia Romana, integrando a Galácia do Norte e do Sul.
O Apóstolo, enquanto cidadão romano, tinha o costume de agrupar as igrejas segundo as províncias romanas a que pertenciam, tal como fez com as da Macedônia e da Acaia, e possivelmente também o teria feito com as da Província da Galácia.
A composição dos membros das igrejas da Galácia era de:
a) judeus cristãos já circuncidados, que ali chegaram em função da diáspora (dispersão de judeus cristãos depois da perseguição) e que também desejavam ver circuncidados os étnico-cristãos, ou gentios; e
b) gentios da região, de origem pagã, convertidos ao Cristianismo.
A população da Galácia, como um todo, era predominantemente mestiça, devido às misturas raciais em sua composição centenária.
4. OS PROPÓSITOS DA CARTA
A Epístola aos Gálatas apresenta evidências internas que apontam para um motivo principal e alguns secundários.
4.1. O propósito central da epístola aos Gálatas foi combater o ensino de alguns judeus cristãos (judaizantes): a justificação pela fé, mediante a graça de Deus, era insuficiente para que os gentios pudessem ser salvos.
Eles também deveriam seguir alguns preceitos da Lei mosaica para a salvação. É como se, antes de se tornarem cristãos, eles se tornassem prosélitos, ou seja, abraçassem a religião judaica, cumprissem as exigências de alguns preceitos da Lei de Moisés e fossem admitidos como herdeiros da Aliança, estabelecida por Deus somente com o povo de Israel. Era como se os gentios precisassem se converter primeiro ao judaísmo para, então, se tornarem cristãos (seguidores do Messias).
Portanto, a doutrina da justificação exclusivamente pela fé (enfatizada em Gálatas 1.23; 2.16; 3.26 e 5.22) foi questionada pelos judaizantes (judeus cristãos que achavam que parte da Lei mosaica deveria ser cumprida) e influenciava as igrejas. Quando Paulo soube que tal heresia fora aceita pelos Gálatas, escreveu a epístola para combater esse desvio do verdadeiro evangelho.
4.2. Outros propósitos secundários ou corolários:
a) defender a autoridade de seu apostolado, questionada pelos judaizantes;
b) denunciar o ensinamento dos judaizantes como um “outro evangelho” (falso);
c) esclarecer o papel da Lei de Moisés em relação ao Evangelho de Cristo;
d) reforçar a nova unidade em Cristo, onde não há distinção de raça, gênero, classe social etc.;
e) definir o sentido da verdadeira liberdade cristã; e,
f) distinguir as obras da carne e o fruto do Espírito.
Esses temas são aprofundados a seguir.
5. OS PRINCIPAIS TEMAS ABORDADOS NA CARTA E PASSAGENS-CHAVE, COM EXPLICAÇÃO
5.1. Justificação pela fé em Jesus Cristo
Gálatas 2.16: Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada [Grifos meus].
A frase “obras da lei” (do grego erga nomou) não se refere apenas a “boas obras” genéricas e aos dez mandamentos, mas especificamente aos preceitos da Lei mosaica, incluindo rituais como a circuncisão, a guarda de dias (sábado e outros dias ‘sagrados’) e observância de leis dietéticas.
O destaque de Paulo é que a observância dessas regras nunca pode conferir justiça diante de Deus. A única via é a fé (pistis) em Jesus Cristo. A repetição da frase “pela fé em Cristo”, no verso em pauta, enfatiza a exclusividade dessa via. Nenhuma carne, ou seja, nenhum ser humano pode ser justificado por seu próprio esforço legalista.
A justificação é um ato divino, baseado na fé do crente na obra consumada por Cristo, ou seja, Seu sacrifício remidor pelos pecados dos que o recebem pela fé salvadora. Paulo defende a salvação como um dom gratuito de Deus, recebido pela fé; essa fé leva à verdadeira liberdade e a uma vida transformada pelo Espírito.
Paulo argumenta enfaticamente que ninguém pode ser declarado justo diante de Deus (justificado) através da observância de preceitos legais, rituais ou tradições. A nossa aceitação por Deus não depende de quão “bons” somos ou de quão estritamente seguimos regras, mas da perfeição de Cristo, creditada a nós pela fé.
A doutrina da justificação pela fé exalta a suficiência e a exclusividade da obra de Cristo na cruz, afirmando que Ele é o único mediador e salvador. Ninguém precisa de “algo mais” para ser salvo e se tornar um verdadeiro cristão; basta receber e viver em Cristo. Bastam os ensinamentos bíblicos, sem a necessidade de outro livro dito sagrado, escrito por quem quer que seja, acrescentando outras exigências à salvação.
Portanto, a doutrina da justificação pela fé, central em Gálatas, é a base da teologia paulina e um dos pilares da fé cristã protestante. Ela é o meio pelo qual seres humanos pecadores podem ser reconciliados com um Deus justo e santo.
5.2. “Outro Evangelho” ou o evangelho distorcido
Paulo inicia sua carta de forma abrupta, pulando a usual ação de graças, para expressar sua consternação.
Gálatas 1.6: Admiro-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho.
A palavra “outro” (do grego heteros) não significa apenas diferente, mas de uma natureza completamente distinta, um evangelho que não é evangelho de forma alguma. Ele estava muito chateado, pois os gálatas se afastavam do evangelho genuíno, fundamentado na graça de Deus, para um evangelho que exigia obras da Lei. Por isso, profere uma maldição (anátema) severa contra qualquer um, inclusive contra ele mesmo ou um anjo do Céu, que pregasse um evangelho diferente (Gl 1.8,9).
Para Paulo, o Evangelho da graça era singular e inalterável, pois sua autenticidade divina não veio de homens, mas da revelação direta de Jesus Cristo.
5.3. A Lei de Moisés após a vinda de Cristo
Gálatas 3.19, 22-25: Qual era então o propósito da lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o Descendente a quem se referia a promessa, e foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador. [...] Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, a fim de que a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo, fosse dada aos que creem. Antes que viesse esta fé, estávamos sob a custódia da lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir fosse revelada.
Assim, a lei foi o nosso tutor [aio] até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé.
Agora, porém, tendo chegado à fé, já não estamos mais sob o controle do tutor.
A Lei foi dada por Deus a Moisés com o propósito específico de revelar o pecado e a incapacidade humana de cumpri-la perfeitamente, agindo como um “aio” ou tutor que nos conduz a Cristo. A Lei nunca teve o poder de justificar; ela apenas expõe a necessidade de um Salvador.
Paulo usa a experiência de Abraão em Gálatas 3.6-9 para mostrar que a salvação sempre foi pela fé. Abraão foi justificado pela fé muito antes de a Lei ser dada no Sinai. A Lei, portanto, não substituiu nem anulou a promessa feita a Abraão.
Paulo descreve o propósito da Lei como um “tutor” ou “guardião” (paidagogos, em grego) que nos conduziu a Cristo (Gl 3.24,25). O papel do paidagogos (pedagogo) era supervisionar as crianças e levá-las à escola; não era o professor em si, mas um guardião temporário. Da mesma forma, a Lei não era o fim em si mesma, mas uma provisão temporária que cumpriu várias funções essenciais antes da vinda de Cristo.
A Lei “encerrou a todos debaixo do pecado” (Gl 3.22), expondo a natureza pecaminosa da humanidade e a necessidade de um Salvador. A Lei funcionava como um espelho que mostra as manchas, mas não as remove. Além disso, a Lei serviu para demarcar Israel como um povo separado, mantendo-o distinto das nações gentílicas até que Cristo viesse e quebrasse as barreiras.
Com a chegada de Cristo, a Lei Mosaica não tem mais propósito. Os crentes em Cristo não estão mais “debaixo da lei” (Gl 3.25 e 5.8), mas “debaixo da graça”. Para Paulo, a Lei não tem mais poder para condenar aqueles que estão em Cristo. A justiça de Cristo é imputada ao crente pela fé, cumprindo a exigência da Lei.
O Espírito capacita os crentes a cumprir o “mandamento de Cristo” de amar o próximo (Gl 5.13,14) e a produzir o fruto do Espírito (Gl 5.22,23), que é a manifestação da justiça que a Lei desejava, mas não podia produzir por si mesma.
Portanto, Gálatas revela que a Lei é boa e santa em sua essência, mas que seu papel é agora substituído pela obra superior de Cristo e pela vida no Espírito, que concede a verdadeira liberdade e a capacidade de obedecer a Deus por amor.
5.4. Unidade em Cristo
Gálatas 3.28: Nisto, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todas vós sois um em Cristo Jesus.
Este versículo é uma declaração radical da unidade e igualdade no Novo Pacto, um chamado poderoso para a unidade e a inclusão. No mundo antigo, e especialmente na sociedade judaica, havia distinções marcantes entre judeus e gentios, escravos e livres, homens e mulheres, que afetavam o status social e religioso. Paulo declara que, em Cristo, essas barreiras são abolidas.
A justificação pela fé promove a unidade na igreja. Se tanto judeus quanto gentios são justificados da mesma forma, pela fé em Cristo, então as barreiras étnicas e culturais que os dividiam devem ser derrubadas. Isso não significa que as diferenças são apagadas, mas que elas perdem sua capacidade de criar hierarquias ou barreiras espirituais.
Esta unidade não significa uniformidade, mas sim o reconhecimento de que, apesar de nossas diferenças, somos todos igualmente amados, perdoados e aceitos por Deus em Cristo.
5.5. A liberdade cristã
Gálatas 5.1: Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão.
Este verso é um apelo poderoso para que os gálatas e todos os crentes se mantenham firmes na liberdade que Cristo conquistou para eles. O “jugo da servidão” se refere à escravidão da Lei e ao esforço inútil de tentar alcançar a justiça através de rituais, obras ou ‘algo mais’.
A liberdade em Cristo em Gálatas tem as seguintes características e significados:
a) Somos livres da condenação do pecado, da tirania da Lei e das exigências dos judaizantes.
b) É uma liberdade para servir a Deus com um coração voluntário, impulsionado pelo amor, e não pelo temor.
c) Na liberdade em Cristo, somos filhos e herdeiros de Deus, libertos para viver uma nova vida de obediência amorosa, impulsionada pelo Espírito, não pelo medo da condenação.
d) Não é uma licença para pecar. Liberdade não é licenciosidade. Em Gálatas 5.13, Paulo adverte:
Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.
Liberdade em Cristo é a capacidade de viver em verdadeira santidade, não por obrigação para ganhar a salvação, mas por gratidão e amor ao Salvador. Aquele que verdadeiramente compreende a graça divina não deseja pecar; ao contrário, anseia por agradar a Deus.
e) É a liberdade para servir a Deus e ao próximo com um coração motivado pela gratidão e pelo amor. É o serviço amoroso ao próximo. O Apóstolo diz em Gálatas 5.14:
Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
A essência da Lei moral é o amor, resultado natural da vida no Espírito. Se não estamos sob o jugo da Lei para sermos justificados, somos constrangidos pelo amor de Cristo a cumprir a Lei em seu sentido mais elevado – o amor. Em Gálatas 6.2, Paulo exorta:
Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo.
f) Viver essa liberdade é andar no Espírito.
Gálatas 5.16: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne.
A vida cristã é uma batalha contínua entre a carne (nossa natureza pecaminosa) e o Espírito Santo que habita em nós.
5.6. Obras da carne
Gálatas 5.17-21: Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam. Mas, se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da lei. Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus.
A expressão “carne” (sarx no grego) significa a natureza adâmica, o ‘velho homem’, a fragilidade humana e a sua tendência ao pecado. Ela age pelas concupiscências, isto é, por nossa natureza pecaminosa, como luxúria, desejos descontrolados e paixões impuras. A concupiscência da carne não procede de Deus (1Jo 2.16). Para isso, como ensinou Jesus, devemos vigiar e orar para que não caiamos em tentação (Mt 26.41).
Categorias de obras da carne
a) Pecados sexuais: impureza e libertinagem;
b) Pecados religiosos: idolatria e feitiçaria;
c) Pecados de relacionamentos (sociais): ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja;
d) Pecados de intemperanças (excessos): embriaguez, orgias e coisas semelhantes.
Como vencer as obras da carne:
1. Aceitando o convite de Jesus, convertendo-nos verdadeiramente, recebendo o Espírito Santo (Gl 5.13a);
2. Usando nossa liberdade com santidade e prudência (Gl 5.13b);
3. Priorizando a lei do amor em tudo que fizermos (Gl 5.13c), ou seja, amando;
4. Vivendo e andando no Espírito (Gl 5.16-18, 25).
Só o Espírito Santo pode nos ajudar a viver em santidade e agradar a Deus, produzindo o fruto do Espírito em nós, o melhor antídoto à carne: nove ‘gomos’ do fruto do Espírito versus 15 obras da carne. Jamais podemos viver a vida cristã somente pelos nossos próprios esforços, sem a ajuda do Espírito. Ele faz com que o nosso homem interior tenha forças e condições para se opor às obras da carne, ou seja, não ser dominado pela velha natureza adâmica (1Co 3.3).
Quem anda no Espírito resiste às obras da carne, pois somente cheios dEle temos condições de viver e agir de modo a honrar o Senhor. O Espírito vai orientar, mas a carne sempre vai resistir.
5. Mantendo a carne na cruz (Gl 5.24). O problema é que ela, às vezes, ressuscita (Gl 2.20).
Romanos 8.8: Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus.
O viver na carne opera morte (espiritual e física), mas o viver no Espírito conduz o crente à felicidade, à vida eterna (2Pe 2.10). A oposição da carne contra o Espírito é algo contínuo. Essa luta vai perdurar até o dia em que recebermos do Senhor um corpo glorificado (Fp 3.21).
5.8. O fruto do Espírito
Gálatas 5.22,23: Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.
Paulo agora apresenta o contraste entre as “obras da carne” (pecados) e o “fruto do Espírito”. Este verso mostra que a liberdade da Lei não é um convite à licenciosidade, mas sim à vida cheia do Espírito, que naturalmente irá produzir características divinas, ou seja, o caráter e a personalidade de Cristo.
O fruto é singular (“fruto” e não “frutos”), indicando que é um produto unificado da obra do Espírito Santo no crente. Viver pelo Espírito significa manifestar essas qualidades, evidências de uma vida verdadeiramente justificada pela fé e liberta da escravidão do pecado.
O “fruto do Espírito” (Gl 5.22,23) é um conjunto de qualidades divinas (amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio) que são produzidas na vida do crente pelo Espírito Santo. Ele se relaciona diretamente com a mensagem principal de Gálatas, pois demonstra que a verdadeira liberdade em Cristo não leva à licenciosidade, mas a uma vida transformada e santa, evidenciando que o crente está andando no Espírito e não na carne.
Divisão e definição do fruto do Espírito por categoria
1. Relação com Deus (virtudes internas) - Amor: o fundamento de todas as outras virtudes. - Alegria: a satisfação espiritual que independe das circunstâncias. - Paz: a tranquilidade da mente baseada na reconciliação com Deus, também independentemente das contingências. 2. Relação com o próximo (virtudes sociais) - Paciência (ou longanimidade): a capacidade de suportar ofensas e adversidades sem se vingar. - Amabilidade (ou benignidade): a disposição gentil e o carinho no trato com os outros. - Bondade: a prática ativa do bem e a generosidade em ações concretas. 3. Relação consigo mesmo (virtudes de conduta) - Fidelidade (ou fé ativa): a lealdade, confiabilidade e integridade no caráter. - Mansidão: o controle da força, agindo com suavidade e humildade. - Domínio próprio (ou temperança): o autocontrole sobre os desejos e impulsos humanos. |
Princípios do fruto do Espírito
1. Todos que somos salvos mediante a fé em Jesus recebemos o Espírito Santo no momento da nossa conversão (Rm 8.9; 1Co 12.13 e Ef 1.13,14).
2. Diferenças entre dom, plenitude, dons e fruto do Espírito:
a) Dom: o próprio Espírito dado. Salvação.
b) Plenitude: enchimento. Quando permitimos que o Espírito esteja pleno em nós. Não é batismo do Espírito.
c) Dons: carismas (graças) ou capacitações do Espírito para a obra. Mais de 30. Dados, pelo menos um a todos e mais a alguns, conforme a soberania de Deus.
d) Fruto: nove características de um único fruto. É esperada a evidência de todas (não se pode escolher).
3. O fruto é do Espírito Santo (fonte, causa) e é o resultado da Sua presença em nós. Sem Ele a plena manifestação do fruto é impossível.
4. Um dos principais propósitos do Espírito é nos transformar à imagem de Cristo, fazendo-nos mais e mais iguais a Ele. Jesus é o retrato fiel do fruto do Espírito.
5. O fruto do Espírito está em direto contraste com as obras da carne (Gl 5.19-21; 2Co 5.17 e Fl 4.13).
6. O fruto do Espírito é uma manifestação visível (resultado) de uma vida transformada (Mt 3.8; 7.16; Rm 1.13; Ef 5.9 e Hb 13.15).
7. O “fruto” faz parte da lei da semeadura e da colheita: “aquilo que o homem semear isso também ceifará” (Gl 6.7). O nosso interior é como um campo onde estamos semeando diariamente. O adubo da conversão genuína, oração e estudo da Palavra, viabiliza a plena frutificação do Espírito Santo em nós.
O fruto do Espírito conforme diferentes versões:
FRUTO DO ESPÍRITO PARA UMA BOA RELAÇÃO | NVI (Nova Versão Internacional) | NTLH (Nova Tradução Linguagem de Hoje) | ERC (Edição Revista e Corrigida) | REVISADA (Edição Revisada EBB) |
COM DEUS | Amor Alegria Paz | Amor Alegria Paz | Caridade Alegria Paz | Amor Gozo Paz |
CONSIGO | Paciência Amabilidade Bondade | Paciência Delicadeza Bondade | Longanimidade Benignidade Bondade | Longanimidade Benignidade Bondade |
COM O PRÓXIMO | Fidelidade Mansidão Domínio próprio | Fidelidade Humildade Domínio próprio | Fé Mansidão Temperança | Fidelidade Mansidão Domínio próprio |
6. GÁLATAS E A REFORMA PROTESTANTE
Nenhum período da história cristã foi tão impactado pela Carta aos Gálatas (como também pela Epístola de Paulo aos Romanos), quanto a Reforma Protestante, no século XVI. A Carta aos Gálatas (3.11) cita o verso que foi escrito primeiro em Habacuque 2.4 e citado em Romanos 1.17 e em Hebreus 10.38. Tornou-se a base para a Reforma.
Martinho Lutero, o pai da Reforma, encontrou em Gálatas a chave para sua própria libertação espiritual e para a redescoberta do evangelho. Sua obra “Comentário sobre a Epístola aos Gálatas” é um clássico da literatura teológica, onde ele ardentemente defende a justificação somente pela fé (sola fide) como a doutrina central e essencial para a salvaç ão. Lutero via em Gálatas o fundamento para desafiar as práticas da Igreja Católica de sua época, que, em sua visão, exigiam obras e rituais para a salvação.
João Calvino, outro proeminente reformador, também comentou extensivamente Gálatas, reforçando a soberania de Deus para a salvação e a doutrina da graça. Embora seu foco fosse mais sistemático que o de Lutero, ele concordava plenamente com a primazia da fé sobre as obras para a justificação, vendo a Lei como um meio de revelar o pecado e conduzir a Cristo.
Os reformadores usaram a Carta aos Gálatas para combater o que consideravam o legalismo e o sistema de mérito que havia se infiltrado na Igreja Católica de então.
OUTRAS CURIOSIDADES
7. De quem Paulo recebeu o Evangelho? Quem o discipulou no Cristianismo? No Judaísmo, Paulo disse que foi educado aos pés de Gamaliel. Quando Paulo fala que não recebeu nem aprendeu o evangelho de homem algum, ele naturalmente não se refere aos fatos da vida e ensinamentos da vida de Jesus, pois seria improvável que passasse 15 dias com Pedro (Gl 2.18) e nada aprendesse. Paulo diz que o Evangelho lhe fora dado diretamente por Jesus Cristo. Seria nos três anos na Arábia? A origem essencial de seu chamado é divina e não outra.
8. Arábia. Depois de sua conversão Paulo passou três anos na Arábia, conforme relata em Gálatas 1.17,18. Só depois iniciou seu ministério procurando os outros apóstolos. Ele não diz o que lá fez. A hipótese mais aceita é que ele precisou desse tempo para estudar as Escrituras do AT, revendo seus conceitos e sua visão de judeu ortodoxo. Foi o tempo do seu ‘Seminário Teológico’. Alguns dizem que ele também teria recebido instruções diretamente de Jesus Cristo ressurreto (ou do Espírito Santo) neste período, ao dizer que ele era o guardião do mistério, recebido de Cristo, conforme mencionado em Efésios (Gl 1.17,18).
9. A ordem dessa declaração não pode ser invertida:
Gálatas 5.16: Por isso digo: vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.
Não nos esforçamos para nos purificar e como recompensa ganhamos um andar no Espírito, pelo contrário, andamos no Espírito e Ele nos refreará de satisfazermos os desejos carnais pecaminosos (Gl 5.16).
10. Analogia de Hagar e Sara em Gálatas 4.21-31. Paulo usa uma narrativa do AT para ilustrar a liberdade e a escravidão, mas os estudiosos discutem a extensão e a aplicabilidade da alegoria em sua argumentação teológica, pois parece não encaixar no assunto. A melhor explicação encontrada é que os cristãos são filhos espirituais de Sara, não de Agar – isto é, somos filhos da mulher livre, não filhos da escrava; temos mais em comum com Isaque, o filho da promessa, do que com Ismael, o filho do esforço humano (4.21-31).
11. Anjo. Quando Paulo fala de um anjo vindo do Céu que pregaria outro evangelho (1.8), está se referindo a um anjo de Deus, apenas hipoteticamente, mas algumas religiões e heresias surgem dizendo que seus líderes tiveram revelações de anjos. Seria apenas uma forma de Paulo enfatizar o absurdo. Em Gálatas 3.19, sabemos que a Lei foi dada a anjos para a entregarem a Moisés (Gl 3.19). Na verdade, uma referência ao anjo do Senhor, no AT, geralmente é o próprio Senhor. Independentemente da fonte alegada, um ensino errado será sempre um ensino errado, quando não for fielmente bíblico.
12. Decair da graça, em Gálatas 5.4, é uma condição temporária e não definitiva de um salvo em desobediência, como defendem algumas denominações cristãs. É lamentável, mas possível que um salvo viva fora dos padrões divinos por um tempo. Se realmente foi salvo, será restaurado pela graça, mediante o Espírito que o levará ao arrependimento, ainda em sua vida terrena.
13. Possivelmente, Paulo tinha uma doença nos olhos, que talvez fosse o seu “espinho na carne”. Os gálatas foram muito amáveis com o apóstolo em função dessa limitação visual, especialmente num tempo em que havia poucos recursos para amenizá-la (Gl 4.13-15). Sei o que esta limitação representa! Como escrevi anteriormente, Paulo deve ter redigido a Carta sem a ajuda de um amanuense (escriba), como costumava fazer. Ele escreve no final da Epístola: “Vede com que grandes letras vos escrevo”. Quem enxerga mal ou tem apenas um pequeno resíduo visual, só lê e escreve com letras grandes de tamanho proporcional à sua limitação. Os recursos para minimizar esta dificuldade, na época, eram muito limitados.
14. Castrar. Parece que Paulo, devido à sua irritação com os judaizantes que insistiam na circuncisão, em Gálatas 5.11,12, não usou a palavra circuncisão (peritome = cortar ao redor, pequeno corte), mas a expressão apokopto (mutilar ou castrar), já que eram tão radicais nesta questão.
15. A relação de Paulo com Pedro e outros apóstolos, incluindo o relato da confrontação em Antioquia (Gl 2.11-14), levanta questões sobre a dinâmica apostólica e as tensões iniciais na igreja e no colégio apostólico, em função de outras questões.
16. Judaizantes. O termo não é pejorativo, mas descreve sua principal crença e prática: a insistência de que os gentios convertidos ao cristianismo precisavam “judaizar”, ou seja, adotar certas práticas da lei mosaica, especialmente a circuncisão, além da fé em Jesus Cristo, para serem considerados verdadeiros seguidores de Cristo e plenamente aceitos por Deus. Os judaizantes não queriam obrigar os cristãos a cumprirem toda a Lei, mas, ao menos, uma pequena parte dela. Seria somente a obediência às festividades, aos rituais de pureza e à exigência da circuncisão.
17. Escravidão nos tempos bíblicos. O Apóstolo, ao mencionar que em Cristo “não há escravo nem livre”, põe em evidência uma questão ainda não resolvida e que precisava ser mencionada.
A Galácia, assim como Israel, estava sob domínio de Roma. O Império Romano que anunciava a paz duradoura (Pax romana), na verdade expandia seu território por meio da força militar e cada vez mais adquiria terras que passavam para os militares de altas patentes, como prêmios pelas conquistas. Alguns dos povos conquistados eram deixados vivos para se tornavam escravos. Assim, aquele império legitimava a escravidão e utilizava-se da mesma para construir seus palácios, templos, estradas e aquedutos, em troca do mínimo para a sobrevivência desses escravizados. Na época, como por muito tempo no Brasil e no mundo, a escravidão não era ilegal ou necessariamente imoral. Era possível vender-se como escravo como último recurso de uma pessoa endividada.
Conforme as Escrituras, os escravos (doulos) no Oriente Antigo (incluindo Israel) eram prisioneiros de guerras (Nm 31.7; Dt 20.10; 1Rs 20.9 e 2Cr 28.8), sendo alguns destinados ao Tabernáculo ou ao Templo (Nm 31.32-47; Js 9.27-32; Ed 8.20; Ez 44.7) e outros ainda para as funções militares (Dt 20.10-14; 21.10; Jz 5.30), sendo que a maioria pertencia ao rei, desempenhando um papel importante para a causa israelita no período da monarquia (1Rs 9.21, 27; 2Cr 8.18 e 9.12).
Em Israel, o sequestro e a venda de um israelita eram considerados crimes capitais (Ex 21.16; Dt. 24.7). Ele tinha que ser libertado ao completar seis anos de serviços prestados.
O escravo israelita podia recusar a liberdade depois de cumprido o período estipulado (quando bem tratados, sem ter para onde ir); o patrão era obrigado a oferecer-lhe a liberdade (Ex 21.5,6; Lv 23.39-55; Dt. 16.16,17), no entanto, havia vozes de profetas que condenavam a escravidão, porque a consideravam desumana (Is 50.1; Am 2.6).
Paulo conhecia muito bem as agruras em que viviam os escravos e as rejeições que sofriam por parte dos livres, principalmente os livres que também eram patrões. Por isso, o apóstolo emite um parecer desafiador, de se tratarem como iguais, como Deus os trata.
18. A condição da mulher na cultura judaica e greco-romana
Gálatas 3.28: Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. [grifo meu]
A Carta aos Gálatas introduz outra questão polêmica de proposta igualitária e libertadora, desta vez, em relação à mulher. No mundo judaico, a mulher se vinculava ao marido via casamento. Segundo o AT, a mulher era uma espécie de posse do marido (Ex 20.17; Dt 5.21). Rute foi comprada com o campo que Boaz redimiu (Rt 4.5,10).
Uma noiva tinha um preço, que era o dote pago pelo noivo. Apesar de a esposa ser considerada uma posse, não era o mesmo que um outro bem, pois em se tratando da esposa não podia ser vendida. As mulheres, em geral, apesar de ocuparem um lugar social inferior aos homens, também podiam desempenhar algumas funções importantes como a de profetisa, que é o caso de Mirian, irmã de Moisés (Ex 15.20); e Débora, que também julgava o povo (Jz 4.4).
Na cultura helenística (grega) havia dois grupos: o das mulheres nobres e livres e o das escravas e servas.
20. ESBOÇO DE GÁLATAS
1. O homem e sua mensagem: 1.1-24
I. Saudação de Paulo:1.1-5
II. A decepção de Paulo: 1.6-10
III. A comissão de Paulo como Apóstolo: 1.11-17
IV. O estabelecimento de sua causa por Paulo: 1.18-24
2. Paulo faz sua reivindicação: 2.1-21
I. Esclarecendo e defendendo o Evangelho: 2.1-5
II. A relevância do Evangelho para todos: 2.6-10
III. Inconsistência e conflito: 2.11-14
IV. A futilidade da lei para a salvação: 2.15,16
V. Tudo em graça: 2.17-21
3. Justificação pela fé: 3.1-29
I. Jesus Cristo: crucificado e ressuscitado: 3.1-5
II. Abraão: O protótipo do verdadeiro crente: 3.6-9
III. Resgatado da maldição pela cruz: 3.10-14
IV. A promessa imutável: 3.15-18
V. A Lei: nosso custodiante: 3.19-25
VI. Batizado em Cristo: 3.26-29
4. Filhos e herdeiros de Deus: 4.1-31
I. Não é um servo, mas um filho: 4.1-7
II. Substituindo Deus por Deus: 4.8-10
III. O poder da pessoa e do pessoal: 4.11-20
IV. Duas alianças: 4.21-31
5. Implicações práticas do Evangelho: 5.1-26
I. Participação e antecipação na liberdade de Cristo: 5.1-6
II. Outro apelo pessoal: 5.7-12
III. Liberdade responsável: 5.13-15
IV. Andando no Espírito: 5.16-26
6. A Vida compartilhada do povo de Deus: 6.1-18
I. Cargos de carregamento e compartilhamento: 6.1-6
II. A lei da colheita: 6.7-10
III. Glória somente na cruz: 6.11-15
IV. Uma bênção e um apelo: 6.16-18